Edmundo Isidoro dos Santos
Ao acordar nesta manhã de verão, pássaros cantavam às luzes que surgiam; poucos, na verdade, pois a invasão urbana conseguiu dizimá-los, conduzindo-os ao vasto cerrado. Mas, à proporção que as horas passavam, meus ouvidos, mesmo desgastados pela voragem do tempo, não deixaram de exercer sua importante e insubstituível função.
Então, ouvi o teu barulho através dos automóveis passando em disparada pela via asfáltica nas proximidades da nossa morada.
Ouvi tua fala nos trabalhadores indo ao diário labor.
Ouvi a algazarra de teus estudantes jovens em direção às escolas, para construírem o amanhã.
Ouvi, também, através da memória, barcos singrando as águas do Velho Chico unindo cidades.
Ouvi o rumor dos teus caminhões de carga, carregados de hortigranjeiros produzidos pela irrigação.
Ouvi teus mercadores comprando e vendendo multifárias mercadorias.
Ouvi o gemido dos que sofrem, atendidos por abnegados médicos e enfermeiros (as).
Ouvi o alegrar do teu demorado, mas constante progresso.
Ouvi o “dá-me uma ajuda”, das pessoas que vivem perambulando pelas ruas.
Ouvi, com lamento, o grito do descaso feito ao desordenado crescimento, nas casas sem número, nas ruas sem nome, nos guardas particulares, nos fétidos esgotos e lamaçais pós-chuva que produzem enfermidades e muriçocas;
Ouço, igualmente, com alegria, o barulho da esperança do teu sorridente amanhã.
*Edmundo Isidoro dos Santos é ministro presbiteriano jubilado, professor aposentado da UNEB e escritor.





