Belluzzo defende recuperação da economia antes de ajuste nas contas públicas

O economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, entrevistado ontem (22) no programa Espaço Público da TV Brasil, defendeu que é preciso recuperar primeiro a economia do país para depois fazer o ajuste nas contas públicas. “Não há jeito, em uma economia capitalista, de fazer ajuste fiscal sem que recuperar a economia”, disse, na gravação do programa, que vai ao ar hoje, às 23h.

Belluzzo lembrou que, quando há retração da economia, as receitas do governo caem. Além disso, as empresas deixam de pagar impostos para “se financiar”, já esperando o lançamento do programa de recuperação de receitas do governo, com desconto no futuro. “É um processo autodestrutivo. É preciso criar alguma alavanca para a economia se recuperar.”

Para ele, a alta do dólar pode ser uma alternativa para o país exportar mais. Entretanto, destacou que é preciso que a economia mundial não tenha retração, para que o câmbio seja uma alavanca para o crescimento.

O economista defendeu a reorganização orçamentária, para que possa permitir o investimento em infraestrutura em parceria com o setor privado. “Precisa engendrar mecanismo de gasto, seja privado ou publico, para tirar a economia no buraco”, disse.

Na avaliação do professor, a discussão sobre a economia brasileira “virou uma disputa futebolística”. “Há pouca complexidade na discussão. Você não analisa os processos que conduziram a economia a essa situação”, disse. Ele que há risco de recessão na economia mundial, em 2016, devido a “movimentos que estão se acumulando e se casando”, como a desaceleração da economia chinesa, o “baixo e frágil” crescimento dos Estados Unidos e a estagnação da economia europeia.

“A discussão no Brasil ficou muito provinciana porque nós desconhecemos o que está ocorrendo na economia mundial. E o que está ocorrendo não é bom”, disse. A crise de 2009 foi um desarranjo na articulação entre Estados Unidos, China e Europa, ressaltou. Para ele, a supremacia dos mercados financeiros é estrutural, não somente no Brasil, mas no resto do mundo.

O economista criticou o aumento da taxa básica de juros, a Selic, “em uma economia que tem o vício da indexação”. Na sua opinião, ao aumentar os preços administrados, como da gasolina represado anteriormente e das tarifas de energia, os preços livres também subiram. Também criticou a tentativa do Banco Central de tentar atingir o centro da meta de inflação, de 4,5%, a “qualquer custo”. “Quem provocou o desajuste fiscal foi a política monetária [aumento da Selic para conter a inflação]”. Com a taxa mais alta, há mais gastos com juros da dívida pública.

Belluzzo disse que o Brasil tem dependência grande de fluxo de capitais que entram no Brasil para obter ganhos com a taxa de juros mais alta do que de outros países.

No programa, o professor e economista, que também foi presidente do Palmeiras, fala sobre investigações do serviço de inteligência norte-americano, o FBI, e sobre crimes ligados ao futebol mundial. Para ele, as investigações “invadem” uma esfera dominada por propinas e interesses relacionados a direitos de transmissão.

Paulista de Bariri, hoje com 73 anos, Belluzzo foi assessor econômico e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda na década de 1980. Em 2005, recebeu o Prêmio Juca Pato, como Intelectual do Ano. Além de professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é consultor editorial da revista CartaCapital.

Formado em direito e ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP), é pós-graduado em desenvolvimento econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp. É autor, entre outros, do livro “Os antecedentes da tormenta” e “Ensaios sobre o capitalismo no século XX”, e coautor de “Depois da queda, luta pela sobrevivência da moeda nacional”.

O programa Espaço Público é apresentado pelos jornalistas Paulo Moreira Leite e Florestan Fernandes Júnior.

Fonte: Agência Brasil

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