Por Carlos Humberto
Dona Lúcia está bombando na internet. Tirada da cartola pelo coordenador técnico da seleção brasileira Carlos Alberto Parreira, durante entrevista coletiva concedida aos jornalistas nesta quarta (9.7), a personagem, fictícia ou real, logo foi parar nas redes sociais e virou piada. Sua carta de apoio ao trabalho da comissão técnica soou mais como uma peça piegas para desviar o foco de possíveis falhas ocorridas na preparação do time brasileiro.
O técnico Luiz Felipe Scolari, inquestionado há um ano e meio, chega ao final da Copa execrado pela opinião pública que o acusa de ser o responsável pela vexatória derrota do time canarinho em cem anos de existência. Segundo enquete do Estadão, 69% dos torcedores culpam o técnico do pentacampeonato pelo fracasso na busca pelo hexa.
A paixão exacerbada do torcedor é fato e dita o ritmo da convivência entre o amor e o ódio no esporte, em especial o futebol, oscilando entre vitórias e derrotas, conquistas e fracassos.
Mas o que dizer da mídia nacional, formada por profissionais, na cobertura da 20ª copa do mundo realizada no Brasil?
Para facilitar a análise vamos considerar a tevê aberta, representada pela Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão no país, e por assinatura, em especial os canais ESPN e SportTV. Não que as outras mídias – jornais e rádios – não mereçam atenção. Mas é a frente da tv ou telões de fan-fests que o torcedor que não pode ir ao estádio acompanha os jogos.
A qualidade técnica da TV Globo é indiscutível e reconhecida mundialmente, e não faz parte da nossa discussão. Interessa o conteúdo das pautas apresentadas de forma massificadora ao longo de toda sua programação. No entanto, algumas pautas desenvolvidas ao longo do torneio às vezes parecem zombar da inteligência do telespectador.
Que o ufanista Galvão Bueno solte seu vozeirão para chamar as massas é compreensível, uma vez que ele sabe que está vendendo um produto e o sucesso depende da receptividade da clientela, no caso, o torcedor/expectador. É questionável, no entanto, o interesse que o receptor possa ter quando somos avisados que Neymar e sua namorada se encontram em hotéis nas folgas, que Neymar vai usar uma chuteira dourada de R$ 1.200 ou que a Fifa vai proibir Neymar de mostrar a cueca durante os jogos.
Os textos produzidos por Tino Marcos ou Marcos Uchoa, sempre leves e contextualizados, às vezes sugerem uma forçação de barra. Parece haver uma cumplicidade entre os repórteres e os homens que dirigem a seleção e as informações que realmente interessam não vem a público.
Nesse momento, por não ter a facilidade de acesso que sua maior concorrente, aparecem as matérias dos canais ESPN, com análises mais aprofundadas mas quase sempre carregadas de críticas sem, contudo, abrir mão do otimismo destilado pelos editoriais da Globo.
É notória, por exemplo, a preferência de grande parte dos quadros de repórteres e comentaristas da ESPN por tudo que envolve as equipes estrangeiras, em contraponto ao que cerca a seleção brasileira. Decididamente, CBF e ESPN não dividem o mesmo espaço.
Por ter que atender a toda sua grade de programação, do início ao fim do dia, a Globo exagera em tentar transformar em notícia trivialidades que, em situações normais, não iriam ao ar. E, muitas vezes, os próprios repórteres se confundem como personagens das matérias que produzem.
Outro fato comum aos dois meios de comunicação – os canais abertos e por assinatura -, ficou claro após a eliminação do selecionado brasileiro da grande final no Maracanã: a caça às bruxas dos supostos responsáveis pela derrota acachapante para os alemães. E dessa, nem dona Lúcia e sua carta salvam Felipão e companhia do pelourinho.






