Falha em laqueadura e vasectomia depende da técnica, dizem médicos

Reversão natural de cirurgia é rara e, quanto mais tempo passa, mais difícil.
Funcionária pública de MT engravidou 16 anos após fazer esterilização.

gravida_laqueadura300x400A possibilidade de falha natural em uma laqueadura ou vasectomia depende do tipo de técnica usada nessa cirurgia de esterilização, destaca o ginecologista Rogério Dias, professor e chefe do setor de endoscopia ginecológica e planejamento familiar da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, no interior de São Paulo.

Nesta sexta-feira (15), o G1 noticiou o caso da funcionária pública mato-grossense Carmem Luci Andrade, de 38 anos, que já é avó e descobriu estar grávida 16 anos após ser submetida a uma laqueadura.

“Existem até 15 técnicas diferentes, com várias vias de acesso – desde vaginal até por videolaparoscopia. E é possível amarrar as trompas e cortar um pedaço da alça delas, ou só amarrá-las, ou ainda optar por outros métodos”, explica.

O médico afirma, porém, que, de acordo com a literatura médica, a reversão espontânea da laqueadura pode ocorrer em 0,5% a 1% dos casos, independentemente da cirurgia que foi feita.

A técnica francesa de Pomeroy, que amarra e corta as trompas, é a mais usada no Brasil. Segundo o ginecologista José Bento, esse procedimento é um dos mais simples, e o risco de gravidez nesse caso é de um em 2 mil – muito menor que o da pílula anticoncepcional, que é de dois ou três para cada cem, por exemplo.

“Com isso, as pontas da trompa se afastam uma da outra, mas mesmo assim pode haver falhas. Não existe método contraceptivo 100%, nem a laqueadura”, destaca José Bento.

Dias complementa que as trompas se dividem em quatro partes, e à medida que diminui o diâmetro delas – mais perto do útero – fica mais difícil reverter a laqueadura. Por isso, a técnica feita pelo ginecologista fica a 3 centímetros da porção inicial das trompas, mais próximo do útero. Assim, se alguma infecção entrar pelo canal vaginal, fica mais difícil que isso favoreça a reversão da cirurgia.

Processos inflamatórios

“São processos inflamatórios que ajudam a reverter espontaneamente a laqueadura. Podem ser motivados por bactérias (como a clamídia) ou não. Quando se passa muito tempo da operação, fica mais difícil engravidar. Por isso, nesse caso de Mato Grosso, eu não atribuiria a reversão ao tipo de técnica, já que em uma cirurgia malfeita a gravidez poderia ocorrer logo no primeiro ano. Acredito que uma infecção possa ter contribuído”, aponta Dias.

Segundo José Bento, quanto mais tempo se passa, mais difícil fica para uma laqueadura se reverter naturalmente, porque a mulher vai envelhecendo, os óvulos acabam tendo mais dificuldade de fecundação e as trompas, quando cortadas, formam uma espécie de cicatriz dura.

“A idade da mulher conta, principalmente se ela estiver no período de maturidade sexual, que começa entre os 11 e 13 anos e pode terminar com mais de 50 – normalmente, a menopausa aparece dos 48 aos 53”, acrescenta Dias.

E a laqueadura não interfere em nada na menstruação, na TPM nem nos níveis hormonais – é apenas uma interrupção da passagem dos óvulos, ressaltam os médicos. O que pode mudar é a chance de a mulher ter uma gravidez ectópica ou tubária após a cirurgia: o risco aumenta de 2,5% em uma paciente normal para 5% após a esterilização.

Laqueadura após cesárea

Muitas mulheres optam pela laqueadura após a cesárea, para aproveitar uma única cirurgia e recuperação. Mas, segundo José Bento, o ideal é que se espere pelo menos um ano após o nascimento da última criança para escolher esse método “tão radical e definitivo”.

“Se for uma paciente com 38 anos e quatro filhos, aí ninguém vai questionar”, diz.

Dias complementa que uma lei de 1996 proíbe a realização de laqueadura após um parto normal. O que se permite, segundo ele, é fazer a operação pelo menos seis meses após a mãe dar à luz, quando ela já voltou às condições fisiológicas anteriores à gestação.

“Em caso de cesárea, o médico tem argumentos para dizer que pode aproveitar a mesma abertura. O problema é que às vezes o profissional faz a cesárea apenas para poder realizar a laqueadura, mesmo sem a mulher ter indicação para esse tipo de parto. Essa prática é coibida pelos conselhos regionais de medicina”, enfatiza Dias.

Vasectomia revertida

O método de esterilização optado pela calígrafa Célia Sanday, de 46 anos, e pelo marido, Régis, foi a vasectomia, há 15 anos. Isso porque o casal de São Paulo já tinha três filhos: Beatriz, hoje com 20 anos, Eduardo, de 18, e Andressa, de 15.

“Tive complicações nas três gestações e todos os partos foram por cesariana. Pelo risco que eu corria, não poderia engravidar mais. Até pensei em fazer laqueadura, mas o Régis achou que o custo da vasectomia era muito menor – um terço do valor – e mais simples. Ele também ficou com medo que desse algum problema na minha recuperação”, conta.

Quando a então caçula Andressa estava com 10 anos, Célia começou a sentir mal-estar, enjoo e um gosto ruim na boca. Quando a menstruação demorou dois meses para vir, ela procurou o médico e descobriu que já estava grávida de 2 meses e meio.

“No primeiro mês que não veio a menstruação, não me toquei direito. Eu estava supertranquila, não me preocupava mais com o dia certo, estava mais desligada. Aí, quando engravidei, meu marido brincava que ia mandar fazer exame de DNA, mas isso não gerou um atrito maior”, lembra.

Ela diz que, além do susto da gravidez, seu primeiro ultrassom acusou gêmeos, mas depois ela descobriu que houve duplicidade de imagem no exame e que era apenas uma menina, Danielle.

“Além de eu ter engravidado, corria o risco de serem dois”, afirma.

Aos 36 anos, quando a quarta filha nasceu, Célia decidiu fazer laqueadura para não correr mais nenhum risco.

Chance de até 2%

A probabilidade de uma “recanalização” espontânea da vasectomia – ou seja, quando os tubos deferentes (que conduzem os espermatozoides dos testículos até a uretra) cortados na cirurgia se juntam novamente, sozinhos – varia de 0,5% a 2% dos casos, segundo o urologista Fabio Vicentini, do Hospital das Clínicas (HC) e do Hospital Brigadeiro, ambos em São Paulo.

“Isso tem a ver com a técnica, e não com a idade do homem. Um método mais simples e rápido tem mais riscos de falhar. O custo é o mesmo, mas o procedimento depende da experiência de cirurgião, não do paciente”, explica.

Em uma das técnicas mais simples, é retirado um pedaço desses canais e então ligadas as pontas. Em outra, é removida uma parte dos tubos e as pontas são viradas para lados opostos. Em um terceiro procedimento, considerado mais completo, as pontas dos canais são “queimadas”, invertidas, e o tecido do testículo é colocado entre os dois tubos. Mesmo nesse caso, ainda há uma pequena chance de reversão.

“É preciso fazer um espermograma três meses após a vasectomia para ver se o paciente já está liberado. Depois, ele pode fazer um acompanhamento anual, para ter garantia”, diz.

Isso porque, ao contrário da mulher, cuja laqueadura é imediata, a vasectomia necessita de um exame complementar para acusar que a quantidade de espermatozoides está zerada. Em geral, após 20 ejaculações, isso já acontece.

“Na reversão da vasectomia, ocorre uma espécie de inflamação entre um tubo deferente e outro, onde se formam microcanais que acabam se comunicando, e aí podem passar alguns espermatozoides”, explica.

Segundo José Bento, a natureza fica tentando recompor esse trajeto a todo custo. “É uma característica do nosso organismo”, afirma.

A vantagem da vasectomia em relação à operação feminina, na opinião de Vicentini, é que ela é menos invasiva, mais externa e precisa apenas de uma anestesia local.

O Sistema Único de Saúde (SUS) realiza laqueaduras e vasectomias apenas em pacientes com mais de 25 anos ou dois filhos. E a cirurgia de reversão – que pode ser feita e ocorre principalmente quando a pessoa se casa novamente – não é coberta pela rede pública, apenas por médicos particulares.

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