Enquanto a pesquisa revela que verdadeira opinião dos brasileiros é contrária a culpa da mulher, Juazeiro registra seis casos de estupro somente este ano.
Por Jacqueline Santos

No último dia 27, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo que causou polêmica entre os brasileiros. O estudo foi realizado através do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), e revelou o então posicionamento dos brasileiros em relação à violência contra a mulher. A pesquisa foi realizada em maio e junho de 2013 em 3.809 domicílios de 212 municípios, abrangendo todas as unidades da federação.
Entre os dados levantados, a pesquisa mostrou que 65,1% da população brasileira acha que a mulher que veste roupa curta mostrando o corpo merece ser atacada. Outro dado impressionante que a pesquisa afirmou ser verdadeiro é que 58,4% dos brasileiros acham que se a mulher soubesse se comportar melhor os estupros iriam diminuir.
O estudo ainda trouxe as possíveis idéias que explicaria o resultado da pesquisa. “Por trás da afirmação, está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores. A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir “adequadamente””.
Porém, na tarde de ontem (4), o Ipea admitiu que houve erro no levantamento. A troca de gráficos provocou uma interpretação errada dos dados. O instituto afirmou que o erro foi causado pela troca dos gráficos relacionado a dois questionamentos do estudo. Os dados corretos indicam que 58,4% das pessoas discordam totalmente da frase “Mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”, 11,6% discordam parcialmente; 3,4% se dizem netros; e 26% concordam (12,8% parcialmente e apenas 13,3% concordam totalmente).
O diretor da área social do Ipea pediu a própria exoneração assim que a falha foi detectada. Os resultados da pesquisa geraram uma grade mobilização na internet, com a campanha #eunaomereçoserestuprada e indignação da presidente Dilma Rousseff.
Mesmo a opinião da maioria dos brasileiros sendo contra a prática do estupro e responsabilizando o estuprador pelo crime, em Juazeiro, segundo a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), só no ano de 2013 foram registrados 17 estupros na cidade. Nos primeiros três meses deste ano, a delegacia registrou seis ocorrências de estupro.
Segundo a coordenadora do DEAM, Kirllem Maristela Borges Sobreira, esses registros estão de acordo com a reformulação da lei relacionada ao estupro. “Não existe mais tentativa de estupro, tudo agora é estupro. Desde a passar a mão sem consentimento até tentar beijar a força, é considerado estupro”, afirmou a coordenadora.
O Código Penal Brasileiro diz que “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. § 1o Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2o Se da conduta resulta morte: Pena – reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.”
Outro levantamento realizado pelo Ipea foi a Nota Técnica Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde, uma pesquisa que traçou um perfil dos casos de estupro no Brasil a partir de informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan). A pesquisa estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia.
“As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, afirma o estudo.
A DEAM de Juazeiro não dispõe de profissionais nas áreas de psicologia e serviço social. Porém, as mulheres que sofrerem esse tipo de abuso podem procurar o Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM), que só em janeiro e fevereiro deste ano atendeu 40 mulheres violentadas. O CIAM oferece acompanhamento psicológico, jurídico e médico às vítimas.




