750_201611810657556Michael Kiwanuka é um grande artista negro novo, mas  ainda não é um “ídolo”. Talvez jamais o seja. Compreensível. Ao invés de se gabar de suas roupas de grife e ostentar carrões, joias, mansões e mulheres fáceis, ele expressa sua dor em suítes soul de dez minutos com direito a cordas, coros, solos de guitarra cheios de sentimento e letras sensíveis.
Pelo menos, é o que se ouve em seu segundo álbum – seu primeiro a sair no Brasil –, o arrepiante Love & Hate. Produzido pelo mago Brian Danger Mouse Burton (Gnarls Barkley, The Black Keys), o álbum tem sido universalmente aclamado pela crítica estrangeira como um dos discos do ano.
Love & Hate traz de volta o sentimento da soul music mais introspectiva e/ou  melancólica  de gigantes do gênero, como Marvin Gaye e Bill Withers, aliado à produção estilo europeu vintage de Danger Mouse – algo similar ao que ele já tinha feito no brilhante Rome (2011), álbum que o produtor gravou em parceria com o músico italiano  Daniele Luppi.
E pensar que Kiwanuka, dizem as más línguas, chegou a pensar em desistir da música – mesmo sendo aclamado já em seu primeiro álbum, o folk blues Home Again (2012). O boato surgiu no Reino Unido devido ao longo tempo (quatro anos) entre os trabalhos.
Mera síndrome do temido segundo álbum. Nesta exclusiva para o Jornal A Tarde, feita durante sua primeira rodada de entrevistas para a imprensa brasileira, Kiwanuka nega que tenha considerado desistir.
“Levei muito tempo para criar músicas novas. Estava tentando encontrar coisas interessantes para dizer nas canções e canções interessantes, para começar”, esclarece.
“Sobre desistir, é que, como tive dificuldade de compor músicas novas, pensei em dar um tempo mesmo, a fim de ganhar inspiração. Eu nunca vou desistir. Dar um tempo, talvez”, afirma, a voz serena.
Isolamento e descoberta
Nascido em Londres em 1987, Kiwanuka é filho de um casal ugandense que se refugiou na Inglaterra da ditadura genocida do general Idi Amin Dada nos anos 1970. Criado no subúrbio de Muswell Hill, ele foi, quase sempre, o único menino negro da vizinhança.
O sentimento de isolamento se reflete em sua música introspectiva e também no jeitão tímido. Em suas primeiras apresentações nos Estados Unidos em 2012, ele, um cantor negro de música negra, espantou-se ao notar que suas plateias eram eminentemente brancas. Essa vivência rendeu uma das melhores músicas de Love & Hate: Black Man in a White World.
“Acho que não é só na América (que isso acontece), é em todo lugar. Até acho que os jovens negros estão ouvindo soul music – não no seu todo, mas em sua forma mais contemporânea moderna, como Frank Ocean ou The Weeknd, cantores populares agora. O que eu faço talvez não se relacione com a cultura negra de agora, com o que o jovem negro faz agora”, observa.
 
Apesar disso – e de ser frequentemente comparado aos mestres do soul  –, Kiwanuka não é um repetidor de estéticas vintage como Lenny Kravitz em início de carreira ou a banda The Black Crowes, e sim um artista do seu tempo, que ouve a música de agora. “Gosto de Frank Ocean, Kendrick Lamar, amo Tame Impala – uma guitar band australiana –, Jack White, um monte”, afirma.
“(Esses sons antigos como Marvin Gaye etc) Eu descobri  com  amigos na escola. Na época, a gente estava descobrindo os velhos discos de bandas antigas, Beatles, Stones e tal. Pensei em olhar os discos de soul e foi assim que descobri Marvin Gaye e  outros”, diz.
De único menino negro da vizinhança a músico de sucesso mundo afora, Kiwanuka está ciente de que sua história pode inspirar  outros jovens que se sentem isolados: “Quando era mais novo, sentia falta de ter alguém como eu, alguém em quem eu poderia me espelhar, um cara tipo Jimi Hendrix, um jovem negro tocando rock’n’ roll. É bom ter ídolos que te encorajam e inspiram”.
 “Gosto quando alguém te encoraja a ser você mesmo, mas sem exagerar nas diferenças – quando a maioria das pessoas se contenta em ser mais um na multidão. Black Man in White World é muito sobre isso, sobre como é difícil ser você mesmo”, observa.
Londrino de sangue africano, ele não descarta incorporar elementos da terra de seus pais na sua música: “Me relaciono com minhas raízes  através da minha família, da minha história. Em termos de trabalho, pretendo um dia investigar a música local e ver o que posso colher dela”, diz.
Chico Castro Jr/Jornal A Tarde

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