Chico Science

Do caos e da lama da quarta pior cidade do mundo para se viver, em meados da década de 1990, emergiu a voz, o comportamento e a cabeça de toda uma geração: Francisco de Assis França Caldas Brandão, o Chico Science. 

Nascido no dia 13 de março de 1966, Science, a Nação Zumbi e seus dois álbuns Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996) deram voz à lama de Recife e oxigenaram a capital pernambucana, na época, classificada como uma das piores cidades do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Berço de artistas como Alceu Valença e Manuel Bandeira, Recife sempre foi um importante pólo cultural do país. Naquele final de década de 1980, porém, a voz cidade estava abafada também culturalmente.

“Era um buraco negro, não tinha um pub bacana pra ir e escutar música, palcos, nada. Então nós fizemos ali as coisas como a gente podia, não tinha lugar pra tocar, pra tomar uma cerveja e ouvir um som, então a gente criava os lugares”, lembrou o guitarrista da banda Nação Zumbi, Lúcio Maia.

Um dos grupos musicais que desejava fazer algo fora dos ritmos tradicionais em Pernambuco era o Mundo Livre SA. Liderado pelo jornalista Fred Zero Quatro, fazia, já em 1984, um som mais urbano, mas com imensas dificuldades de conquistar um público maior.

O encontro de diversas inquietações, fez com que Zero Quatro, escrevesse, já em 1992, o manifesto “Caranguejos com Cérebro”, uma mistura de sociologia de Josué de Castro com a vitalidade do movimento punk da Inglaterra.

“O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife”, escreveu.

Depois da publicação do manifesto, as pessoas ligadas ao movimento perceberam que o mangue deveria estar presente naquela obra. Diante da riquíssima biodiversidade desse ecossistema, Science inventou uma batida que misturava ritmos tradicionais, como maracatu, ciranda e coco, com guitarra elétrica, batidas eletrônicas e a crítica social do rap — e percebeu que aquilo deveria ser patrimônio de todos.

“O Chico tinha uma generosidade enorme, ele poderia ter dito que o mangue era uma batida que ele tinha criado e ‘vocês que arranjem alguma outra coisa’. Mas, ao contrário, ele teve essa percepção junto com a gente de que o conceito de diversidade é que tinha uma atração poderosa pra nos colocar no mapa. Ele nunca teve o desejo de que o mangue fosse um sucessor do axé, pra ele, quanto mais coletivo e diversificado fosse, mais rica seria a cena daqui”, recordou Zero.

Fundador de grupos como Orla Orbe e Loutstal, Science só ganhou notoriedade mesmo quando, em 1994, já com o grupo Nação Zumbi, lançou o álbum Da lama ao caos.

A lama finalmente ganhava corpo e voz. Com letras fortes e a mistura de ritmos, eles mantinham Pernambuco debaixo dos pés, mas a mente na imensidão do mundo.

“Não era o som influenciando, bastava deixar tudo soando bem aos ouvidos, como dizia o Chico. A gente fazia o que a gente gostava de fazer. Sempre tivemos a influência da diáspora africana, da psicodelia setentista, e também sempre querendo saber coisas novas. Ali já estava tudo calçado pra colocar pra fora a partir de do Lama ao Caos, acho que foi o pilar maior, da nossa fundação”, contou Jorge Du Peixe, atual vocalista da Nação Zumbi e amigo de infância de Chico Science.

Com o lançamento do primeiro disco, a banda se tornou conhecida nacionalmente e os caranguejos, finalmente, começavam a sair do manguezal. Sucessos como Da lama ao caos, A praieira e A cidade, sem pedir licença, começavam a mostrar o resultado de toda aquela ciência musical.

Mas foi no segundo disco, o Afrociberdelia, que completa 20 anos em 2016, que o grupo entrou de vez nas casas dos brasileiros. Com músicas que fizeram parte da trilha sonora de novelas, começaram a tocar em programa de auditório de grande audiência e a aparecer na televisão. 

Pouca gente sabe, porém, que Maracatu Atômico, o maior sucesso daquele disco, não seria gravado se não fosse a pressão da gravadora Chaos. O guitarrista Lúcio Maia conta que a banda era muito fechada a sugestões externas na época e que a regravação da música de Jorge Mautner foi feita em uma estrutura improvisada.

“No início, o presidente sugeriu a regravação do Maracatu Atômico, mas a gente achou que o disco estava muito longo e descartou. Acabamos cedendo porque já estava com muito estresse, o orçamento estava estourado. Quando isso acontece você fica meio que na mão dos caras. No fim, gravamos de última hora e de qualquer jeito. Eu não tinha amplificador e gravei com um pequeno, que estava atrás de uma porta no estúdio”, contou.

A exemplo do que aconteceu em outras capitais no final da década de 1980 e início de 1990, vieram das periferias as vozes que iriam dar uma nova cara à música brasileira. O manguebeat fez companhia ao rap paulistano e ao funk carioca, em uma época que toda uma geração recém-saída da Ditadura Militar estava procurando algo para gostar.

O jornalista Renato Lins, que fez parte da fundação do movimento, lembra que muitos narizes foram torcidos para a mistura musical e cultural que o manguebeat fazia na época. Para ele, o fato dos principais idealizadores não serem parte do estabilishment cultural e político recifense e até esconderem seus sobrenomes foi o principal fator de desconfiança.

“Ninguém da linha de frente pertencia às famílias tradicionais do Recife, ninguém tinha sobrenome ‘nobiliárquicos’, digamos assim, tanto que a maioria nem os destacava. Depois, a gente ousou pressionar a cultura popular e colocar o maracatu em pé de igualdade com o hip hop e a música eletrônica. Na época, a visão armorial via a cultura popular como algo estagnado, atemporal, quase fora da história, que tinha de ser preservado numa redoma”, criticou.

O maior crítico de Chico foi o poeta Ariano Suassuna. Idealizador do movimento armorial, que buscava fazer uma arte erudita puramente brasileira, sem nenhuma interferência estrangeira, fazia parte da secretaria de cultura do estado de Pernambuco e criticava duramente o artista. Em sua visão, Chico deveria deixar o Science de lado e adotar o “Ciência”.

O escritor Xico Sá, colega de Renato Lins no curso de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e amigo de Science, aponta que o duelo cultural entre os dois foi fundamental para o fortalecimento do mangue.

“Era uma provocação de artista pra artista que foi muito interessante pra cidade. Eles faziam parte de uma cena cultural muito forte e viram que uma coisa não eliminava a outra. O Chico colaborou mais pro pensamento do Suassuna do que o próprio purismo do movimento armorial. Houve uma troca bonita, todo mundo entendeu que poderia reinventar o maracatu com uma batida, que ele poderia ser mais cosmopolita e não ser só um movimento ligado ao folclore a viver das esmolas das prefeituras. O movimento abriu o maracatu pra um novo mundo e que isso não era a destruição de nada. A música tem isso mais do que qualquer outra arte, ela permite as misturas sem que você destrua culturas locais”, analisou.

Em 2 de fevereiro de 1997, Chico Science se envolveu em um acidente de carro e morreu aos 30 anos. Sozinho, bateu contra um poste na rodovia PE-1, na divisa entre Olinda e Recife. Além de uma filha, Lula Louise, ele deixou diversos seguidores que não deixaram o mangue morrer.

“O legado dele somos nós, vivos, fazendo coisas galgadas na intenção musical que a gente deixou ali e sendo sincero com o que a gente faz”, comentou Du Peixe.

Para o cantor China, que começou a carreira graças a influência de Science, a tragédia de sua morte com apenas 30 anos deixou algo positivo para as gerações futuras: acreditar no que você faz, sem esperar ajuda de ninguém.

“Ele nos inspirou a ir atrás dos nossos sonhos, de fazer por nós mesmos, sem esperar ajuda de ninguém, apenas seguir em frente acreditando nas nossas convicções. O grande legado que ele deixa é: nós temos uma cultura incrível, vamos olhar pro passado e modernizá-la. Faça do seu jeito, mas faça algo”, lembrou.

Já Zero Quatro reforça a importância que Chico ainda tem pra cidade, onde está imortalizado em companhia de figuras como Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre. “Em Recife, a gente fala que ou você é Cavalcanti ou é Cavalgado’. Chico foi o primeiro Cavalgado, a primeira figura sem sobrenome, a ter uma estátua na cidade”.

Um movimento como o manguebeat nunca se encerra somente na música. Como a Bossa Nova, a Tropicalia e a Jovem Guarda, deixa reflexos nas diversas forma de arte como o cinema e a moda e, também, na realidade política e social do país.

Para o escritor Xico Sá, a visão que Science teve sobre o momento de Recife, ainda no final dos anos 1980, encontra paralelo com o atual momento do país. Ele palpita que, apesar de ainda estar difuso nas manifestações de rua, o “buraco“ que se abriu entre a população e seus representantes pode render frutos importantes no futuro.

“A gente vive um momento riquíssimo, de uma certa desilusão da própria esquerda com seus representantes de esquerda. Uma nova mudança, em breve, vai acontecer, como disse Belchior. Essa falta de utopia ainda está difusa nas ruas, mas a arte sempre tem essa grandeza. Quando surge na arte, vai ficar mais claro, e a gente vai entender o que estava se querendo dizer”, encerrou.

O ano de 2016 vai guardar grandes homenagens ao cantor. Está previsto a inauguração de um memorial em sua homenagem em Recife. Além disso, o cineasta José Eduardo Miglioli lançará o documentário Chico Science – Um Caranguejo Elétrico. O grito do mangue, ao que tudo indica, continuará ecoando por muito tempo. 

Fonte Carta Capital

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