Perfil dos assassinos em série dos EUA: homens, brancos e saudáveis

A tarde de 6 de julho de 1944 seria especial em Hartford, a capital do estado de Connecticut, nos Estados Unidos. Havia uma apresentação do circo dos irmãos Ringling. Com a maioria dos homens jovens nas diferentes frentes da Segunda Guerra Mundial, as arquibancadas estavam cheias de mulheres e crianças. Depois dos leões, estava programada a atuação dos Wallendas Voadores, uma família de acrobatas. Foi quando o desastre começou.

Naquela época, uma espécie de parafina altamente inflamável era usada para impermeabilizar os toldos. Em poucos segundos, uma chama se transformou em um terrível incêndio. Enquanto a banda tocava a marcha The Stars and Stripes Forever (Estrelas e Barras para Sempre), pelo menos 168 pessoas morreram. Foi o incêndio com o maior número de vítimas da história dos EUA. E foi o maior assassinato em massa naquele país.

Seis anos após a tragédia, Robert Segee, que então trabalhava na montagem do circo, confessou que ateou fogo no local. Embora nunca tenha sido interrogado nem julgado pelo crime, Segee pôde ser examinado pelos médicos. Era um sujeito bruto, com um QI 78 quando a média é de 100, que havia sido maltratado por um pai que o castigava colocando seus dedos sobre o fogo quando era criança. Era, como escreve Michael Stone, professor de psiquiatria clínica da Universidade Columbia, “basicamente um piromaníaco, provocando numerosos incêndios, inclusive em toldos de outros circos que não causaram vítimas, antes do incêndio de Hartford”.

Stone estudou a história dos assassinatos múltiplos dos EUA entre 1913 até o ano passado. Cem anos de violência em massa entre os quais selecionou 235 casos. De acordo com o FBI, para que se caracterize um assassinato múltiplo, deve haver pelo menos quatro vítimas no mesmo ato ou espaço de tempo, o que exclui os assassinos em série. Stone incluiu em sua amostra vários casos nos quais o assassino tinha intenção de fazer mais vítimas, mas acabou matando apenas dois ou três. Já existem centenas de estudos e livros sobre esse tipo de crime. Mas o que esse professor fez foi compilar todas as informações oficiais, publicações científicas e de jornais para relacionar o assassinato múltiplo com a saúde mental. Seus resultados, publicados na revista Violence and Gender, desmontam alguns mitos, embora confirmem outros.

O autor de um assassinato múltiplo é quase exclusivamente homem, em sua maioria da raça branca, da classe trabalhadora, impulsionado por algum tipo de ressentimento e, embora possa apresentar algum problema de personalidade como o piromaníaco Segee, não é doente mental. Embora tenha tido problemas para classificar os casos históricos de acordo com os padrões atuais que regem a psiquiatria, Stone encontrou apenas 46 casos entre os 235 (cerca de 20%) onde o assassino era doente mental. Desse total, 33 deles faziam parte do amplo espectro da esquizofrenia. Outros sete tinham traços de paranoia e o restante se enquadrava no espectro autista.

“A população em geral acredita que os doentes mentais são mais propensos a cometer um assassinato múltiplo porque estes ganham grandes manchetes nos jornais, e as pessoas desconhecem as estatísticas dos doentes mentais e as porcentagens dos outros grupos que cometem esses crimes”, explicou Stone. “Por isso, se um doente mental provoca um assassinato em massa, para as mentes desinformadas os doentes mentais são vistos como muito perigosos”, acrescenta.

O professor reconhece que os casos dos últimos anos não têm ajudado a acabar com essa percepção. “Jared Loughner, que tentou matar a congressista Gabrielle Gifford [quando seis pessoas foram mortas] sofria de esquizofrenia induzida por drogas. James Holmes [que matou 12 pessoas em um cinema em 2012] tinha um transtorno de personalidade esquizoide. Alexis Aaron, que assassinou 12 pessoas em um campo de treinamento da Marinha, era um paranoico esquizofrênico. E Adam Lanza, que matou aqueles alunos em Connecticut, tinha Asperger”, lembra.

O caso de Lanza é o mais dramático da história recente dos EUA. O jovem, de 20 anos, era incapaz de olhar nos olhos das pessoas. Antes do massacre na escola primária de Sandy Hook, em 14 de dezembro de 2012, Lanza já se comportava de forma estranha há alguns meses. Morava com a mãe, mas há dois anos só se comunicava com ela por e-mail. A mãe era uma paranoica, há tempos se preparava para o fim do mundo, que pensava que iria acontecer no último Natal, coincidindo com o fim de ciclo do calendário maia. Tinha várias armas semiautomáticas em casa e havia pedido outro rifle ao Papai Noel. Cansada de cuidar do filho, pensou em interná-lo em um centro especial. Não foi possível. Naquela sexta-feira, Lanza a matou com um de seus rifles antes de ir para a escola onde acabaria com a vida de cerca de vinte crianças de por volta de seis anos e seis professores.

Menos de 20% dos massacres foram provocados por doentes mentais

“As pessoas começaram a temer que homens com autismo do tipo Asperger eram muito perigosos”, disse Stone, deixando claro que, na verdade, raramente são. “Lanza exemplifica um grupo particular de pessoas com síndrome de Asperger, que são incapazes de sentir empatia, não conseguem entender as interações sociais, as piadas, frases feitas… mas ocasionalmente culpam os outros com os quais têm de interagir por sua rejeição ou antipatia. Não percebem que a reação normal de alguém diante de uma pessoa assim, despojada de todas as habilidades sociais, é se afastar. Lanza era um caso extremo: um completo desajustado social, que acabou cometendo o pior assassinato em massa na história recente dos EUA.”

Mas as estatísticas mostram que a maioria dos autores de assassinatos múltiplos não tem problemas mentais. “Há muitos outros que eram apenas trabalhadores ressentidos, amantes despeitados, um pouco paranoicos, com raiva, mas não loucos”, diz Stone. É o caso de Timothy McVeigh. Movido pelo desejo de vingança da ação policial contra a seita Davidiana, cujos membros estavam instalados em um rancho em Waco, Texas, alguns anos antes, McVeigh colocou uma bomba no edifício federal em Oklahoma City, em 1995. A ação desse extremista de direita, com certos traços paranoicos, acabou com a vida de 168 pessoas, o mesmo número do incêndio no circo.

O incêndio do circo Ringling deixou 168 mortos. Na imagem, o palhaço Emmett Kelly carrega um balde de água para apagar o fogo. / www.circusfire1944.com

Também a vingança, desta vez por paixão, esteve por trás do terceiro grande massacre. Em 1990, Julio González incendiou a discoteca Happy Land, no bairro do Bronx, em Nova York. Queria se vingar de uma garota que o havia deixado. O incêndio matou 87 pessoas, entre as quais não estava sua ex-namorada.

O psiquiatra norte-americano também estudou quase uma centena de assassinatos múltiplos fora dos EUA. Embora a análise não tenha sido extensa, é possível destacar que os EUA concentram a maior parte dos massacres relacionados à política, ao terrorismo e à violência social. Para Stone, isso é causado pelo acesso fácil às armas. Na verdade, existe uma correlação entre a proliferação de armas semiautomáticas nos EUA desde os anos oitenta e o aumento de tais crimes.

Coisa de homens

Embora o dado não seja novo, chama a atenção. Dos 235 casos analisados, apenas nove foram conduzidos por mulheres. Deste modo, 97% dos assassinatos múltiplos são causados por homens. A porcentagem só é superada por assassinos em série ou estupradores. No geral, os crimes violentos são, na maior parte, coisa de homens. A psicologia evolutiva tem relacionado o excesso de violência masculina à biologia, fazendo um vínculo com a antiga divisão do trabalho entre homens e mulheres, sendo eles protetores do grupo. E, nessa divisão, os jovens se destacam. Os níveis de testosterona, por exemplo, diminuem com a idade. Na amostra, 75% dos assassinos tinham entre 20 e 44 anos.

Existe uma correlação entre a proliferação de armas semiautomáticas e o aumento desses crimes

Das nove mulheres, seis tinham um transtorno psiquiátrico. Mas a amostra é tão pequena que impede generalizações. Apesar dessa limitação, pode-se observar que, ao contrário dos homens, nas mulheres a depressão é um fator de risco. Quando ficou grávida de seu quinto filho, em 2001, Andrea Yates estava profundamente deprimida e com alucinações. Quando teve o bebê, morava em um ônibus adaptado em residência por seu marido. Pouco depois de se mudar para uma casa de verdade, em plena depressão pós-parto, afogou seus cinco filhos pequenos.

“A evolução moldou as mulheres para serem mais compreensivas do que os homens, que são configurados para serem agressivos e exteriorizarem sua insatisfação com os demais. As mulheres tendem a culpar-se pelos problemas nos relacionamentos, embora não tenham. Por isso, são menos propensas ao assassinato e, muito menos, para cometer assassinatos em massa”, destaca Stone.

Fonte: MSN Notícias

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