Um dia após a publicação em A TARDE da matéria Cabelo black power é recusado por sistema da Polícia Federal e da enorme repercussão do assunto na mídia nacional e nas redes sociais, a assessoria da PF emitiu uma nota, no início da noite desta quinta-feira, 17, sobre o caso.
O episódio ocorreu na última terça-feira. A jornalista baiana Lília de Souza, 34 anos, esteve no Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) do Salvador Shopping para renovar seu passaporte, mas teve sua foto recusada pelo sistema da PF por conta do seu cabelo black power.
Entretanto, de acordo com o órgão, “o procedimento adotado no caso está dentro dos padrões internacionalmente estabelecidos”.
odologia universalmente aceita. Os chips desses passaportes armazenam inúmeros dados biográficos e vários requisitos são exigidos para uniformização de procedimentos”, informou.
De acordo com o órgão, o chamado padrão ICAO exige que a foto preencha requisitos mínimos para subsidiar a identificação dos viajantes. “O sistema pode reprovar uma foto capturada por inúmeras razões, o que exige uma nova fotografia”.
Critérios
Entre as razões estão: cabelo solto, cabelo na frente dos olhos, cabelo muito volumoso, olho fechado, adornos diversos, ombros ou orelhas que não estejam visíveis e fotos desfocadas.
Ainda de acordo com a Polícia Federal, a Superintendência Regional na Bahia vai procurar a jornalista Lília de Souza para esclarecer os motivos da reprovação de sua fotografia pelo sistema de emissão de passaportes.
Para a jornalista, é um erro adotar um padrão que exclui ou ignora a etnia de um indivíduo. “O que ocorreu comigo serve para que possamos questionar esse padrão. No mínimo, deve ser repensado. O que fica claro é que, definitivamente, estou fora desse padrão adotado pela PF. Eu e muitas outras pessoas que também são negras e têm o cabelo black”.
Lília contou que, segundo as policiais que a atenderam na PF do SAC, também é difícil fazer fotos de pessoas muito negras. “Elas disseram que é preciso clarear a imagem”.
Para a socióloga e coordenadora da Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, Vilma Reis, a explicação da PF não convence.
“O Brasil é um país diverso e é inadmissível que um órgão de segurança federal deixe de levar em consideração características essenciais de conformação étnico-identitária de uma pessoa. Não se pode ignorar essa realidade do país”, afirma.
O mesmo pensa a cantora Juliana Ribeiro. “O padrão utilizado é eurocêntrico, um padrão branco e, portanto, excludente. Se esse padrão tivesse sido pensado e adotado levando em conta a diversidade das pessoas, seria muito diferente”, acredita Juliana, que, até então, não passou por situação semelhante.
“Creio que nunca tive problemas porque nas últimas duas vezes em que fui renovar o passaporte estava com o cabelo curto e preso”, diz.
A Tarde






