Semiárido baiano ganha duas novas áreas de proteção

csm_gitel-boqueira-da-onca-foto-divulgacao_90faf79692Depois de 16 anos de espera, decreto estabelece criação do Parque Nacional Boqueirão da Onça; veja nove fatos que justificam a preservação da área

Único bioma exclusivamente brasileiro, do qual restam apenas cerca de 20% da cobertura nativa, a Caatinga ganhou na primeira semana de abril uma unidade de conservação (UC) de proteção integral com 349 mil hectares, batizada de Parque Nacional do Boqueirão da Onça, e localizado no Semiárido baiano.

O decreto da Presidência da República que estabelece essa nova UC foi publicado no Diário Oficial da União do dia 6 de abril, e também inclui a criação de uma área de proteção ambiental (APA) com 505 mil hectares, o que agrega, no total, 854 mil hectares ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação.

As novas áreas de proteção no interior da UC ficam entre os municípios de Sento Sé, Campo Formoso, Sobradinho, Juazeiro e Umburanas. A proposta do Ministério do Meio Ambiente é transformá-las em um mosaico de unidades de conservação, uma vez que elas representam os últimos remanescentes em área contínua do bioma Caatinga.

Há 16 anos, quando começaram as discussões sobre a necessidade de se conservar a região, a ideia era proteger integralmente os quase 900 mil hectares do Boqueirão, que é como se denomina essa extensa área do Sertão da Bahia caracterizada por cavernas com inscrições rupestres milenares, ecossistemas que abrigam riquíssima biodiversidade, populações tradicionais e desfiladeiros.

Maior área

“Embora a Caatinga tenha ampla distribuição no Semiárido nordestino, a maior área preservada contínua do bioma fica no Boqueirão, e as novas unidades de conservação incluem uma parte desse território”, destaca Rogério Cunha de Paula, do Centro Nacional de Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Segundo o pesquisador, a Caatinga tem menos de 2% de seu território protegido por unidades de conservação. Portanto, a criação das duas novas UCs eleva esse índice. Contudo, conforme os estudiosos, ainda é insuficiente para garantir a sobrevivência de espécies da fauna e da flora nativas. “É urgente situar essa região no centro das políticas públicas de conservação da biodiversidade, seguindo os compromissos do Brasil junto à Convenção da Diversidade Biológica das Nações Unidas”, observa Rogério de Paula.

A importância do bioma da caainga e da necessidade de sua preservação podem ser conferia no vídeo produzido pela WWF, uma das maiores ONGS de defesa do meio ambiente do mundo.

Espécies ameaçadas

Entre as espécies da fauna nativa do Boqueirão que carecem de proteção estão o tatú-bola, as araras-azuis-de–lear, o gato mourisco, o gato-do-mato e as onças.

Cláudia Bueno de Campos, coordenadora do Programa Amigos da Onça, do Instituto Pró-Carnívoros, estima que 30 onças pintadas circulem pelo Boqueirão. As pardas estão em maior número, cerca de 200. A bióloga explica que as onças são espécies conhecidas como “guarda-chuva”, por estarem no topo da cadeia alimentar. “Uma vez protegidas, essa proteção se estende para as demais espécies”, completa. A flora nativa no Boqueirão da Onça não é menos diversa, nem menos ameaçada.

O pesquisador da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), autor do livro Flora das Caatingas do Rio São Francisco – História Natural e Conservação, José Alves de Siqueira Filho, avalia que existem ali mais de 900 espécies de plantas reunidas em 120 famílias botânicas, algumas endêmicas, boa parte ameaçada.

Comunidades tradicionais

O Boqueirão também tem papel chave na segurança hídrica regional. Importantes nascentes localizadas nos planos mais altos irrigam o solo seco do sertão, o que garante condições de vida para comunidades urbanas e rurais. Algumas dessas nascentes foram incluídas dentro dos limites do novo parque nacional.

Em torno dessa área com remanescentes de vegetação nativa, populações urbanas vivem nos cinco municípios da região, que registram baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que tem como critérios indicadores educação, longevidade e renda.

Com a criação das novas áreas protegidas, abre-se a oportunidade para iniciativas de desenvolvimento regional com inclusão das populações tradicionais e mitigação dos impactos dos empreendimentos – sobretudo do setor eólico – que estão sendo direcionados para a região devido à abundância de ventos durante todo o ano.

“Recuperação da vegetação nativa, apoio à conservação das espécies e envolvimento das comunidades locais precisam entrar no radar dessas empresas “, lembra Jaime Gesisky, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil.

Nove dados que você precisa saber sobre o Parque Boqueirão da Onça:

1) É um dos últimos remanescentes contínuos de Caatinga;

2) O parque nacional e a APA agregam 854 mil hectares;

3) O Boqueirão tem uma paisagem incomum, com desfiladeiros e ecossistemas que abrigam riquíssima biodiversidade, importantes nascentes e cavernas com inscrições rupestres milenares;

4) Fica na APA do Boqueirão, a Toca da Boa Vista, maior caverna brasileira, com 97,3 km de extensão;

5) Segundo o MMA, a presença das populações tradicionais foi determinante na elaboração do desenho das UCs, resguardando potencialidades que poderão ser incorporados em um processo de desenvolvimento local, como o ecoturismo;

6) Estima-se que 30 onças pintadas circulem pelo Boqueirão;

7) Entre as espécies da fauna nativa do Boqueirão que carecem de proteção estão o tatú-bola, as araras-azuis-de–lear, o gato mourisco, o gato-do-mato e as onças;

8) As negociações para a criação dessa nova UC duraram 16 anos;

9) A Caatinga tem menos de dois por cento de seu território protegido por unidades de conservação.

Correio

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