Tumultos marcam passagem de blogueira cubana pelo Congresso

Yoani Sánchez participou da exibição de documentário sobre Cuba.
Oposição usou a visita da jornalista como palanque eleitoral para 2014.

CUBUma das principais vozes de oposição ao regime cubano, a blogueira Yoani Sánchez teve uma passagem tumultuada nesta quarta-feira (20) pelo Congresso Nacional. Ao longo das cerca de três horas em que esteve na casa legislativa, houve empurra-empurra, discussões acaloradas entre parlamentares e até mesmo uma confusão envolvendo um deputado e manifestantes que protestavam contra a visita da jornalista de Cuba.

Em um giro pelo país para divulgar o documentário brasileiro “Conexão Cuba-Honduras”, do qual é uma das entrevistadas, Yoani aceitou um convite do deputado Octávio Leite (PSDB-RJ) para ir ao Congresso relatar a situação do país caribenho que vive sob uma ditadura há mais de cinco décadas.

Os parlamentares da oposição aproveitaram a oportunidade para se contrapor ao governo da presidente Dilma Rousseff. Líderes oposicionistas se revezaram nos microfones da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para manifestar apoio à blogueira cubana e criticar o regime dos irmãos Fidel e Raúl Castro e a gestão do PT na Presidência da República.

Cotado para disputar o comando do Palácio do Planalto pelo PSDB em 2014, o senador Aécio Neves (MG) foi um dos parlamentares que foram ao plenário da CCJ prestigiar a dona do blog “Gerácion Y”. Sorridente, Aécio cumprimentou a jornalista e ficou próximo à mesa principal do recinto, porém, não discursou.

Ao contrário do que havia ocorrido em outras cidades pelas quais passou nos últimos dias, Yoani não enfrentou protestos ao chegar à Câmara. Ela, contudo, teve de enfrentar um batalhão de jornalistas que a aguardavam na entrada do parlamento. Parlamentares da oposição, entre eles os líderes de PSDB e DEM, também recepcionaram a blogueira.

Houve empurra-empurra quando a van que trouxe Yoani do aeroporto internacional Juscelino Kubitschek chegou ao Congresso. Fotógrafos, cinegrafistas e repórteres se acotovelaram para tentar falar com a cubana. Ela, porém, optou por não conversar com os jornalistas.

Escudada pelo líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP) e do DEM, Ronaldo Caiado (GO) em meio à confusão, a blogueira se dirigiu para o plenário de votações da Câmara.

No momento em que ela ingressou no salão, discursava o deputado Raul Henry (PMDB-PE). Ao perceber a presença da jornalista, o parlamentar a saudou da tribuna.

“Gostaria de registrar, com muita alegria, a chegada da blogueira cubana, que muito nos honra com sua presença, Yoani Sánchez. Seja muito bem-vinda a esta Casa”, disse Henry.

E no momento em que Caiado explicava aos colegas o motivo da visita de Yoani ao parlamento, a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) interveio para criticar a presença da cubana na Casa.

“Um grave precedente, Sr. Presidente, abre-se na Câmara dos Deputados. Vou trazer um blogueiro baiano amanhã”, ironizou a parlamentar comunista.

A deputada do PT Erika Kokay (DF) também reclamou da visita estrangeira ao plenário. Erika enfatizou que a presença da blogueira no plenário durante a discussão de uma matéria legislativa “feria” o regimento da Casa.

Yoani, então, foi conduzida pelos deputados da oposição ao plenário da CCJ. Para conseguir entrar na sala em que seria exibido o documentário “Conexão Cuba-Honduras”, ela teve de ser escoltada por seguranças da Câmara.

Em meio ao trajeto, houve, mais uma vez, empurra-empurra de jornalistas e parlamentares. A blogueira cubana, contudo, manteve-se o tempo todo sorridente, apesar do tumulto.

Assim que ingressou no plenário, opositores brasileiros do governo de Cuba se aglomeraram diante da porta do recinto para entoar gritos de ordem, como “Abaixo a ditadura” e “Viva a liberdade”.

Dentro da sala, Yoani recebeu flores de parlamentares oposicionistas, em homenagem a sua visita ao Congresso brasileiro. Em seguida, o cineasta Duda Galvão, autor do documentário protagonizado pela blogueira, pediu diante dos parlamentares que as autoridades brasileiras investiguem a denúncia de que um funcionário do Palácio do Planalto recebeu, na embaixada de Cuba, um dossiê com informações contra a jornalista da ilha caribenha.

“O que aconteceu foi uma forma muito agressiva. É preciso apurar. Esse embaixador (de Cuba), não é de hoje que ele apronta. É muito triste”, enfatizou o cineasta.

Após a exibição de trechos do documentário de Duda Galvão, que durou cerca de 11 minutos, Yoani fez um breve discurso aos parlamentares brasileiros. Ao longo de cinco minutos, ela criticou a censura imposta pelo regime dos irmãos Castro e elogiou a liberdade de expressão brasileira.

“Tenho a responsabilidade de narrar essa Cuba real, na qual opinião é traição. Narrar o dia a dia se converte em um problema político. Por que um blog tem de trazer a vigilância policial e a satanização de uma pessoa? A resposta é fácil: em Cuba vivemos uma grande censura”, disse a jornalista.

Enquanto Yoani discursava no plenário da CCJ, simpatizantes e opositores do regime de Cuba discutiam do lado de fora da sala. Militantes de esquerda que chegaram depois da blogueira ao corredor das comissões ergueram cartazes criticando a visita dela ao Brasil. Alguns ativistas exibiram cópias de cédulas de dólar, insinuando que Yoani seria uma mercenária.

Depois do discurso da cubana, parlamentares da oposição se revezaram nos microfones para manifestar apoio ao trabalho exercido pela blogueira contra o regime dos irmãos Castro e também cobrar providências contra o funcionário da Secretaria-Geral da Presidência que recebeu um dossiê contra a jornalista durante uma reunião na embaixada de Cuba. O episódio revelado pela revista “Veja” foi confirmado pelo Palácio do Planalto na última segunda (18).

Um dos poucos parlamentares da base governista presentes ao evento com Yoani, o deputado Glauber Braga (PSB-RJ) questionou a jornalista sobre suas posições em torno do embargo norte-americano ao governo de Cuba e também sobre a existência de uma base militar dos Estados Unidos em território cubano.

Em resposta ao deputado do PSB, a blogueira disse que o embargo da Casa Branca deve terminar “o quanto antes”. “Não é apenas a minha posição de agora, mas de sempre”, concluir. Ela também se manifestou sobre a base americana de Guantánamo. Classificando-se como uma “civilista”, Yoani afirmou que não pode “admitir violência de qualquer país que seja”.

A jornalista criticou ainda a suposta campanha difamatória promovida pelo governo de Cuba contra ela.

“A quantidade de dinheiro que o governo do meu país está gastando nessa campanha contra mim. Todo o financiamento da minha viagem é transparente. Minha passagem foi comprada com a ajuda de outros blogueiros. Vou graças a solidariedade de pequenas pessoas como eu”, ressaltou.

Conhecido por suas declarações polêmicas, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) declarou durante o evento que “graças” à ditadura militar que governou o Brasil durante duas décadas é que o país vive hoje em uma democracia.

“Sem Fidel Castro financiando a luta armada em nosso país teríamos acabado, no máximo, com Costa e Silva o período militar. Graças aos militares, nós hoje gozamos de democracia. Afinal de contas, os bravos defensores da democracia, muitos deles aqui presentes, devem ir para Cuba lutar por democracia. Mostra que é macho lá”, disse Bolsonaro.

O comentário do deputado do PP gerou uma discussão acalorada com o deputado Glauber Braga, que contestou suas declarações. O mal-estar, entretanto, foi contido por outros parlamentares.

Encerrado o ato político da oposição, Yoani teve de encarar novos protestos ao deixar o plenário da CCJ. Manifestantes de esquerda a aguardavam do lado de fora do recinto com cartazes de protesto, notas de dólares e bandeiras de Cuba. Protegida por seguranças, ela conseguiu sair da Casa e entrar em uma van para ir ao Senado participar de uma audiência ao lado do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), único parlamentar do PT que compareceu à exibição do documentário.

Yoani já estava dentro do veículo quando os simpatizantes do regime cubano cercaram a van entoando gritos de ordem, como “Mercenária”.

No momento em que o motorista tentava arrancar, o deputado Mendonça Filho (DEM-PE) investiu contra os manifestantes, amassando as cartolinas e cópias de cédulas de dólares. Seguranças da Câmara e policiais militares do Distrito Federal tiveram de intervir para acalmar os ânimos. A blogueira, então, conseguiu partir para o prédio do Senado.

Informações de G1

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