O Eixo Gêmeo do Velho Chico
Separadas apenas pela imensidão verde-escura das águas do Rio São Francisco, Juazeiro e Petrolina nunca foram realidades isoladas; sempre funcionaram como os dois pulmões de um mesmo organismo socioeconômico. Em meados do século XX, essa interdependência natural ganhou contornos políticos e estratégicos precisos, impulsionada justamente pela sintonia fina entre lideranças como Alfredo Viana e João Barracão.
Nessa época, atravessar o “Velho Chico” de barco — muito antes da inauguração da Via Dutra ou da construção da Ponte Presidente Dutra (aberta em 1954 para ligar definitivamente as rodovias federais entre a Bahia e Pernambuco) — exigia um esforço logístico que tornava o cotidiano das cidades gêmeas um exercício constante de cooperação. Enquanto o trem da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro chegava pelo lado baiano escoando a produção sertaneja, Petrolina respondia como o grande entroncamento viário e comercial que abria as portas para o interior pernambucano e o Nordeste profundo.
É nesse cenário de transição, onde o ciclo do extrativismo fluvial e do comércio tradicional começava a dar lugar a exigências de modernização urbana, que a atuação conjunta de Viana e Barracão se sobressai. Eles compreenderam, de forma intuitiva e pragmática, que o desenvolvimento de uma margem era condição imprescindível para a prosperidade da outra. Não havia como dissociar o mercado de feixes, couros e gêneros alimentícios de Juazeiro da rede de farmácias, armazéns e serviços que brotavam em Petrolina.
Ao alinharem suas gestões e suas influências políticas locais, esses homens públicos garantiram que o crescimento do Vale do São Francisco não sofresse com rupturas de fronteiras estaduais. Eles transformaram a divisa geográfica entre Bahia e Pernambuco em uma ponte viva, pavimentando o caminho para que o sertão central deixasse de ser visto apenas como uma zona de passagem e se consolidasse, definitivamente, como um dos polos geopolíticos e econômicos mais importantes do Brasil.
A Sincronia do Poder Local (1930–1960)
Nas décadas de 1940 e 1950, o interior nordestino passava por intensas transformações estruturais e pelo redesenho de sua redemocratização. É nesse cenário que emergem duas figuras incontestáveis de liderança urbana e articulação política: Alfredo Viana, na baiana Juazeiro, e João Ferreira da Silva, o João Barracão, na pernambucana Petrolina.
Embora separados pelas águas do Velho Chico, os dois líderes caminharam em compasso temporal semelhante. Ambos assumiram as rédeas de suas respectivas municipalidades no final da década de 1940 — período marcado pela consolidação de novos partidos e pela necessidade urgente de modernização institucional das vilas sertanejas, que começavam a despontar como polos regionais de comércio.
Linha do Tempo: Os Passos Cruzados no Vale
1937: Alfredo Viana assume a Prefeitura de Juazeiro pela primeira vez (sob a sigla do PDJ), inaugurando sua visibilidade na chefia do executivo municipal.
Final dos Anos 1940: João Barracão, consolidado como comerciante influente (proprietário da tradicional Farmácia Santa Terezinha), migra com força para a vida pública petrolinense.
1947–1948: Barracão é eleito prefeito de Petrolina pelo PDC, governando até 1951/1952. Paralelamente, Alfredo Viana retorna à prefeitura de Juazeiro (1948–1951), desta vez sob a bandeira da UDN, alinhando as duas cidades sob uma dinâmica de modernização urbana conservadora e progressista.
1959–1963: Em um novo ciclo político, Alfredo Viana retorna ao comando do executivo juazeirense para o seu terceiro mandato, consolidando seu legado administrativo e educacional na região.
Ações Políticas e o Legado de Infraestrutura
As marcas deixadas por Viana e Barracão moldaram a paisagem física e social das duas cidades.
Em Petrolina, a gestão de João Barracão destacou-se pela visão de futuro e pela parceria estratégica com a sociedade civil e a Igreja Católica. Um dos marcos de sua passagem pela prefeitura foi a doação de extensas áreas e quarteirões urbanos estratégicos ao Governo do Estado de Pernambuco, viabilizando a instalação de serviços públicos essenciais que impulsionaram a expansão urbana petrolinense.
Do outro lado do rio, em Juazeiro, Alfredo Viana estruturou a máquina pública municipal em momentos críticos de transição política nacional. Seu foco na institucionalidade e na educação reverberou por gerações, perpetuando-se em símbolos locais como o tradicional Colégio da Polícia Militar Alfredo Viana, que homenageia sua contribuição histórica para o ensino público.
O Impacto Econômico: Uma Economia de Duas Margens
Mais do que prefeitos de suas respectivas cidades, Alfredo Viana e João Barracão funcionavam como os pilares de um mercado comum sertanejo.
Enquanto Barracão dinamizava o comércio e a rede de abastecimento em Petrolina, Viana fortalecia o polo mercantil e a centralidade logística de Juazeiro. A sintonia entre os dois líderes permitiu que o Vale do São Francisco superasse o isolamento histórico, transformando-se no maior celeiro de integração econômica do interior nordestino e pavimentando o caminho para o boom da fruticultura irrigada e do desenvolvimento regional das décadas seguintes.
A colaboração das Famílias Viana e Barracão no desenvolvimento do esporte na Região do Vale
Além da relevante colaboração para o desenvolvimento do campo econômico e político da Região do Vale do São Francisco, as famílias Viana e Barracão deixaram também um legado para o desenvolvimento do esporte na região.
A despeito de eventuais disputas, o que prevaleceu foi a convergência de interesses. E essa convergência encontrou sua expressão mais simbólica na união matrimonial entre Antônio Fausto, filho de Barracão, e Nilza, filha de Viana. O casamento selou não apenas uma relação familiar, mas uma aliança política que projetou benefícios mútuos para as duas margens.
Paralelamente, Alfredo Viana demonstrou visão estratégica ao investir no esporte como instrumento de coesão social. Ao transformar um antigo hipódromo no primeiro campo oficial de futebol de Juazeiro, sede da Liga Desportiva Juazeirense, lançou as bases para a formação de uma cultura esportiva regional. O gesto de Nilza, ao dar o primeiro chute na inauguração, permanece como marco simbólico desse novo tempo.
Do antigo campo ergueu-se o atual Estádio Adalto Moraes. Assim, consolidava-se uma união entre as famílias Barracão e Viana que colaborou o estreitamento dos laços entre as duas margens. Essa tradição de cooperação constituiu-se em patrimônio imaterial do Vale, elevando o desenvolvimento sustentável da região e que deve ser estimulada e preservada pelas atuais lideranças do Vale do São Francisco.
Diário da Região




