‘Os culpados já estão mortos’, diz sobrevivente do Carandiru

Sidney Sales estava no Pavilhão 9 durante a chacina em 1992.
Atualmente ele é pastor, escritor e gestor de clínicas de reabilitação.

foto2b_1Enquanto a sociedade aguarda o julgamento de uma chacina apontada como exemplo de violação dos direitos humanos em presídios brasileiros, um dos personagens que vivenciou o massacre do Carandiru diz estar despreocupado com a sentença. Hoje pastor evangélico e gestor de quatro clínicas de reabilitação na região de Jundiaí (SP), Sidney Sales, 45 anos, diz querer esquecer o que viu em 1992.

Sales estava no quinto andar do Pavilhão 9 no dia em que o batalhão de choque da Polícia Militar invadiu a Casa de Detenção de São Paulo durante uma rebelião. Ele foi um dos detentos que ajudou a retirar muitos dos 111 corpos de presidiários mortos durante o ataque.

Ao lembrar das cenas que, passadas duas décadas, ainda alteram claramente seu humor, Sales diz sentir profunda revolta contra aqueles que ele considera os principais culpados. “Os 26 policiais que serão julgados estavam apenas cumprindo ordens. Os verdadeiros culpados já estão mortos” afirma o pastor, referindo-se ao coronel Ubiratan Guimarães, que comandava o Batalhão de Choque na época, e ao doutor Ismael Pedrosa, que dirigia o Carandiru em 1992. “A própria sociedade absolveu um deles, quando elegeu o coronel Ubiratan como deputado estadual. Então, o que eu posso esperar da Justiça na terra?”, questiona.

O julgamento dos 26 policiais militares que participaram do massacre será retomado nesta segunda-feira (15), a partir das 9h. Até agora, o único réu julgado no processo do massacre foi o coronel Ubiratan. O responsável pela invasão ao presídio foi condenado a 632 anos de prisão em 2001. Cinco anos depois, no entanto, sua defesa recorreu da sentença e ele, já na condição de deputado estadual, foi absolvido. O oficial e político foi morto com um tiro em 2006, dentro de seu apartamento. Ismael Pedrosa também foi assassinado, um ano antes.

Durante entrevista ao G1, Sales mostrou, com suas perguntas, que não está acompanhando as notícias sobre o julgamento. Ele não sabia que a decisão havia sido adiada, por exemplo. Sales diz que, quando percebe que vai passar alguma reportagem sobre o massacre, desliga a TV. “Não são boas lembranças para mim. Isso me faz muito mal”, lamenta. “Eu consegui dar a volta por cima, e a revolta causou algo positivo em mim. Mas, infelizmente, em outros casos não foi assim. Conheço familiares de mortos no massacre que acabaram envolvidos com drogas e bebidas alcoólicas”, afirma.

Comemoração interrompida

Sidney Sales conta que estava comemorando o título de um campeonato de futebol do presídio, na cela 504 E, quando a invasão começou. Ao ouvir os comentários de que a rivalidade entre dois detentos tinha resultado na rebelião e na consequente invasão da polícia, ele tentou acalmar os companheiros. Acostumado com balas de borracha e bombas de efeito moral, Sidney não acreditou quando viu que o Batalhão de Choque atirava para matar. “Só entendi a proporção do que estava acontecendo quando olhei pela janela e vi vários corpos no chão, além de muito sangue”, relembra.

Diante da cena, ele conta que lembrou de um trecho do Salmo 91, que estava em uma carta entregue a ele por uma senhora. “Entrei em uma cela com dez pessoas, cada uma clamando pelo seu Deus. Eu não fiz diferente. Lembrei da carta que aquela mulher me deu e comecei a lembrar das palavras do versículo: ‘Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido’. Foi quando um policial perguntou se havia alguém naquela cela. Na segunda pergunta, eu respondi que sim.” O pastor diz que os policiais ordenaram que todos tirassem as roupas, descessem até o térreo e sentassem, com a cabeça entre as pernas, de maneira que não vissem nada. “Era para não haver reconhecimento depois”, acredita.

“Horas depois, eu fui um dos escalados para ajudar a carregar os corpos para caminhões do IML”. Após carregar 35 cadáveres, Sales tentou voltar para a sua cela. No caminho, um policial pediu para que ele retirasse um último corpo, que estava no terceiro andar. “Vi que era um dos companheiros que estavam me ajudando a carregar os mortos. Foi aí que tive certeza que eu seria o próximo”, conta.

Sales desobedeceu a ordem e foi até o quinto andar, onde encontrou três policiais. “Falei para eles que um tenente tinha mandado me trancar porque o carregamento dos cadáveres havia terminado. Foi quando eles disseram que um milagre iria acontecer na minha vida.” O milagre ao qual os policiais se referiam era a sorte com a qual Sales teria que contar para sobreviver. “Eles falaram que se a chave que eles escolhessem abrisse o cadeado, eu entraria. Do contrário, eu seria morto”, lembra.

Pela segunda vez, segundo Sales, ele recitou o versículo do Salmo 91. “O cadeado abriu e eu entrei naquela cela”, conta, emocionado. Após o massacre, Sales foi transferido para a penitenciária de Mirandópolis (SP).

Depois de cumprir pena, Sales voltou a cometer crimes. “As marcas que o massacre deixaram em mim me impediram de conseguir emprego e de ser aceito na sociedade. Como a sociedade não me quis, eu também não quis a sociedade”, justifica Sales, que diz ter entrado para o tráfico de drogas para manter seu vício e por não ter aguentado a tortura psicológica. Em 1994, durante um confronto com a polícia, ele foi atingido por um tiro que o deixou paraplégico e voltou à prisão.

Mais uma vez, ouvi de um agente penitenciário que um milagre aconteceu na minha vida, quando meu alvará de soltura chegou. Já em casa, recebi uma ligação das missionárias que pregavam na cadeia. Elas me convidaram para vir para uma clínica de reabilitação em Jundiaí. Foi aí que tudo começou a mudar”, lembra.

Sales ficou internado durante um ano e meio. Livre das drogas, resolveu ajudar outros dependentes químicos. Atualmente, o pastor mantém clínicas em Jundiaí, Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista e Francisco Morato (SP). As clínicas utilizam como princípios para a recuperação a orientação e a conscientização em 12 passos, além da espiritualidade. “Eu usava 50 gramas de crack por dia. Hoje dou o pouco que tenho a quem não tem nada.”

O pastor relatou sua experiência em um livro, no qual intitula o capítulo sobre o dia do ataque como “O dia do horror”.

O ex-presidiário também foi retratado no livro “Estação Carandiru”, de Drauzio Varella, e no filme “Carandiru”, de Héctor Babenco, baseado no livro e gravado em 2003. No filme, ele é vivido pelo ator Robson Nunes.

Exemplo de vida

Alexandre Catão de Lima é um dos pacientes da clínica de Várzea Paulista. Ele conta que o exemplo do pastor é o que impulsiona sua recuperação. “Saber que ele passou por tudo isso e hoje dá exemplo é motivante. Aqui ele me ajuda a resgatar meus princípios”, relata o ex-usuário de drogas, que na clínica aprendeu um novo ofício, com um curso de panificação.

Outro egresso do sistema penitenciário que auxilia Sales na recuperação de dependentes químicos é Daniel das Neves. Ele atua como diretor de uma unidade e professor teológico. “Sou discípulo do pastor Sales. Alguém que, em cima de uma cadeira de rodas, tem a coragem de passar a noite na Cracolândia para tentar resgatar os jovens é uma referência”, conclui.

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